ja não é a primeira vez que eu tenho um pesadelo horrível, daqueles que fazem a gente suar frio e acordar ainda mastigando lascas do entressonho.

ao contrário do que pode parecer, não tem nada a ver com zumbis, demônios ou até mesmo com uma maratona interminável no canal de algum youtuber brasileiro. não. eu fui carregado pra terra dos sonhos ruins e, lá, eu tinha prova de matemática.

poderia só pensar "uau, que alívio, eu não preciso mais ir pra escola", mas, talvez, a questão seja um pouco mais profunda.

a real é que eu tenho esse pesadelo com muita frequência. tô eu lá, fazendo alguma coisa completamente aleatória, tipo voando no quintal da casa dos meus pais, lutando contra um exército de neonazistas na avenida paulista, lacrando numa palestrinha mixuruca, gravando uma cena de um filme artístico e todas essas coisas que a juventude da minha época mais queria.

só que aí, do nada, dá-se um PÁ nas minhas caras e eu lembro que eu tenho prova. é muito doido, porque isso me desestabiliza completamente! eu consigo lembrar da sensação que me acomete e que, via de regra, segue comigo um tempo depois que eu acordo. é engraçado porque, no sonho, eu sou eu de agora, não de antes. estou carregado de experiências novas, conheço pessoas e lugares, entendo mesmo da educação em si, de uma forma quase que metapesadelistica, só que estar lá não deixa de me aterrorizar profundamente.

talvez, se eu puder arriscar dizer o que você tá pensando nesse momento, imagino que seria algo entre FAZ TERAPIA e EITA. primeiramente sim, todo mundo precisa de terapia. segundamente, eita mesmo. terceiramente, primeiramente.

essas situações me levam pra uma viagem pelas memórias do ensino médio e, mais além, do ensino funamental. lembro quase que com arrepio o quanto tinha que me esforçar para entender seno, cosseno e tangente ou então o quanto me sentia indo pro abate às vésperas de provas de cálculo na faculdade.

eu sempre estudei em escola pública e, apesar da minha experiência não ter sido terrível, ela foi cheia de altos e baixos, como o bullying que eu sofri, o descaso de alguns profissionais e, claro, a falta de estrutura das escolas. acredite, tem casos piores, como os de uma pessoa que conheci há pouco, em cuja escola a merenderia ameaçou a outra com uma faca e um chá de bebê foi celebrado na sala para comemorar o batismo da criança em uma milícia. sério, eu não inventei isso.

faz a digestão dessas informações aí, truta.

detesto esse pesadelo, no fundo, porque sempre acordo me sentindo burro. não burro no sentido pejorativo da palavra (tem bom sentido?), mas me sinto incapaz, incompleto, como se tivesse ficado algo pra trás e que eu estou deixando lá. a vida escolar em aberto, sem conclusão.

não tenho um bom histórico com a escola ou a universidade, os amigos próximos sabem e fazem até piada quando eu falo de prova e de aula expositiva. mas independentemente da minha história com a educação básica, fico de cara com a profundidade da cicatriz que ficou.

qualquer busca despretensiosa vai trazer alguns dados sobre a educação pública no país, como, por exemplo, que a cada 100 alunos, 11 estão com atraso escolar de 2 anos ou mais (que é o que a gente chama de distorção idade-série). pior que isso, só 15% dos alunos do 9o ano aprenderam matemática adequadamente.

quando eu cursei o meu nono ano, provavelmente fazia parte dessa estatística.

talvez isso tenha criado em mim esse sentimento de incompletude, de que eu não tive a formação adequada quando devia ter feito. até hoje eu tenho dificuldade pra fazer contas grandes de cabeça, por exemplo, e isso me deixa envergonhado quando, na verdade, não é culpa minha de maneira direta. hoje, trabalhando há quase uma década com educação, claro que já ouvi falar do growth mindset, das pesquisas incríveis relacionadas com a capacidade das pessoas de aprender matemática.

já ouvi falar, também, de metodologias inovadoras, escolas maravilhosas em que os alunos fazem assembléias e levam propostas para a direção. já vi escolas que, no quinto ano, os alunos fazem iniciação científica e são orientados pelos professores, com base em um currículo de habilidades e com técnicas maker, a fazer protótipos, máquinas, experimentos e mais um mundo de coisas.

bom, eu não tive nada disso, especialmente porque minha sala tinha 45 alunos com diversos problemas em casa. a rua onde ficava minha escola era perigosa e, belo dia, disseram que um aluno tinha entrado armado lá. me dá frio na barriga só de lembrar...

essa cicatriz que eu carrego - que não é uma mágoa - talvez seja um combustível para toda essa chama que arde em mim, essa vontade de estar e fazer e acontecer em educação, mesmo num país vivendo essa crise política maluca, com um ministério da educação despedaçado.

um estudo de harvard correlacionou elementos associados à pobreza, como prisão, violência e falta de saneamento, com efeitos diretos sobre o desenvolvimento educacional e o posterior sucesso das crianças. se a minha cicatriz, que foi muito mais leve, me traz essas sequelas até hoje, fico imaginando o que o futuro reserva para crianças e jovens que moram em regiões de alta vulnerabilidade, com acesso precário a água potável, comida saudável, segurança, núcleos familiares estáveis e mais uma série de fatores.

talvez o que mais me doa, em toda essa procissão, é sentir que o trabalho que a gente faz, por mais bonito que seja, por mais resultados que traga, parece uma gotinha d'água no oceano. ainda tem muita coisa pra fazer, muita criança morrendo de fome, de violência, pela cor da pele; estudando em escolas precárias, com pouquíssimo acesso, professores sem remuneração adequada e nem plano de carreira. o lado otimista, no entanto, sempre diz: pelo menos é uma gota, podia ser nenhuma.

e a gente segue, até o próximo pesadelo.