nesse momento maluco que a gente tá vivendo, é constante que eu me pegue refletindo sobre um sentido maior para a vida, sobre o grande esquema das coisas ou, em horas de muita inspiração, sobre qual meu papel no quebra-cabeças do universo.

para meu desalento, a resposta, na maioria das vezes, é um profundo silêncio.

nunca fui uma pessoa muito religiosa ou que tenta conferir sentido àquilo que, em geral, não possui nenhum. no entanto, quando o assunto posto à mesa é nossa própria existência nesse espaço-tempo finito, a coisa aperta um pouco. como dizem por aí: quando o avião sacode, a barata voa ou a porta range de noite, um pai nosso não faz mal.

nos altos e baixos (mais baixos que altos, confesso), tenho me questionado muito sobre quem eu sou, onde estou e o que eu ando fazendo. se isso, de fato, é algo que me completa, que me confere sentido ou, de maneira um pouco mais subjetiva, me dá as ferramentas necessárias pra compreender o sentido naquilo que me cerca. pode parecer um pouco clarisselispecteiro, mas uma tentativa de exercitar o "e se eu fosse eu?", repaginado pro século xxi.

olhando em retrospecto, acho que sempre depositei muito do "quem sou" naquilo que era, de verdade, "o que estou fazendo". não tem como, a fronteira é bastante obscura e a rasteira é certa! num discurso que, hoje, eu abomino, confesso com dor no coração que já fui o startupeiro branco de classe média, que achava bonito falar e ser contra o "sistema" que eu nem entendia bem o que ou quem era. afinal, oras, o sistema é o sistema e a gente precisa lutar contra o sistema. a culpa é do sistema! tudo é o sistema. se é o circulatório ou o da maquininha da cielo, eu não sei.

indo ainda mais pra trás no meu tempo interno, eu já quis ser muitos o quês, mas nunca me perguntei verdadeiramente quem eu gostaria de ser. quando eu era moleque ranhento que só chorava, pra mim era óbvio que eu ia ser astronauta ou arqueólogo, afinal, são áreas totalmente correlatas. numa construção bem mais simples, quando a gente é criança, nossa função social é muito mais fácil de comunicar que nossa complexidade interna, nosso eu da alma. afinal, quando alguém me via na rua, a pergunta sempre era "o que você quer ser quando crescer?". dá pra não contar nos dedos de nenhuma mão alguém que me parou, numa bela tarde de domingão do faustão, pra me confrontar com um "QUEM você quer ser quando criar barba e cabelo branco?".

pois é uma pergunta descolada de sentido, se a gente para dois minutos e meio pra pensar. por que eu iria querer ser um quem e não um o quê?! chega a ser cômico imaginar a gente na salinha de aula, com o lápis apontado e os olhos ramelentos de sono (afinal, aula seis da manhã ninguém merece, né?!), estudando a nossa construção de identidade e todas as nuances de um ser que pode se configurar de infinitas maneiras. mais fácil falar pra criança que ela pode ser médica, bombeira, advogada, cientista e mais um monte de coisas que tão lá, no teste vocacional.

afinal, pra quê diachos serve um quem?

posta de outro ângulo, talvez e no entanto, a pergunta se configure de forma mais poderosa: quem é um o quê?

a resposta, e aí está parte da minha aflição, é a de que um o quê, no fundo, acaba não tendo um quem muito claramente definido. essa ancoragem do ser no fazer acaba esmaecendo um pouco a figura por trás da ferramenta, a pessoa dentro da máquina, o ser humano debaixo do seu papel num mundo bem doido e complexo.

sim, eu sei. deixa essa informação ser digerida, mas come uma fatia de abacaxi depois, porque ela é meio indigesta. eu me peguei pensando, depois de alguns anos bastante turbulentos e de questionamentos profundos, sobre essa relação entre o que eu faço e quem eu sou e cheguei à algumas (in)conclusões, já que ainda é trabalho em progresso.

primeiro, entendi que eu não me dou valor por aquilo que eu sou, mas especialmente por aquilo que eu faço. a armadilha desse olhar sobre mim mesmo é que, se eu falho naquilo que faço (e todo mundo, gente, absolutamente t-o-d-o mundo falha), isso me deixa pra baixo num nível perto do irrecuperável. segundo, descobri que eu tenho sim qualidades minhas que não estão necessariamente atreladas à coisas que eu faço, e aqui é preciso que eu faça uma pausa.

quero distinguir o fazer ofício do fazer enquanto ação de um sujeito sobre um objeto. quando me aprofundei ainda mais em toda essa convolução que acontecia comigo, entendi que havia uma possibilidade de separação entre aquilo que é ofício e aquilo que é ação. pode ser que haja ação no ofício, pode ser que haja ofício na ação, mas, para fins de análise, estou olhando para esses dois universos como conjuntos, a priori, sem interseção.

portanto, quando percebi que eu tenho, sim, qualidades enquanto ações, não necessariamente enquanto ofícios, acabei me surpreendendo. por exemplo: eu gosto muito de escrever, muito mesmo, com bastante força. no entanto, quase sempre me privei do fazer porque ele não era ofício, ou seja, porque não contribuía com nenhuma frente profissional com a qual eu estivesse envolvido. ou então, no limite, tentava encaixar a ação no ofício e acabava totalmente com o prazer que tirava dela, pois, agora, era apenas aquilo que já fazia todos os dias.

parece algo simples, que qualquer sessão de coaching ajudaria a resolver (perdão os coachers), mas, na verdade, é algo intrínseco ao meu ser, à minha existência. de certa forma, se paro pra pensar agora, acabei abrindo mão de muita coisa que me constituía para, de um jeito meio esquisito, fingir que eu era outro algo. algo necessário, algo que tinha volume, que era um tijolo numa pilastra fundamental de algum monumento colossal que eu nem conseguia bem ver porque, afinal, eu era só um tijolo e tava preso nela.

a violência disso tudo é que eu acabei pegando o meu quem, que é bem maior e cheio de tentáculos, prendendo ele em caixinhas de quês, cada uma com um rótulo, cada uma menor que a outra, apertada e desconfortável. eu fiz isso por muito tempo, muito mesmo! desde que eu estava na escola, muito provavelmente, quando peguei meu quem cheio de energia criativa, que desenhava aliens, montava histórias em quadrinhos e queria fazer filmes, moldei a ser um o que menos ligado nessas coisas, que queria entrar na universidade, trabalhar com números, computadores e tecnologia. depois um o que cheio de projetos na universidade, então um o que empreendedor, um o que empresário, um o que gestor e a corrente de o quês segue infinita, cada elo adicionado mais pesado que o anterior, me puxando pra beira de um precipício.

o precipício do qual vai cair meu quem, vai se espatifar lá embaixo e virar poeira soprada pro cosmo, a menos que eu faça alguma coisa.

no meio dessas tragédias que estão se desenrolando ao nosso redor, nessa barulheira silenciosa dentro de casa e da cabeça, comecei a me questionar se tenho mesmo um papel a cumprir no quebra-cabeças do universo. mas não me leva a mal, não é uma angústia, pelo contrário. é um alívio.

por tanto tempo eu tentei entender qual era o formato da peça que eu deveria ser e, em nenhum momento, parei pra pensar se eu queria mesmo ser alguma peça... ou, de maneira um pouco mais ampla, se existe mesmo um quebra-cabeças, uma grande engenhoca da qual eu precise fazer parte.

vou pedir desculpa agora. se você esperava chegar nos últimos parágrafos e ver aqui a costura de alguma coisa, uma conclusão arrojada e cheia de ternura, cometemos esse erro em conjunto. eu ainda não concluí nada, em nenhum sentido. ainda não me concluí, não concluí meus fazeres que me tornam quem eu sou, não concluí quais são meus ofícios e se estou nos certos ou não.

o mais perto de um fechamento que posso me dar, bem como para você, é o questionamento que espero ter despertado – ao menos em mim ele acordou – sobre como estamos tratando nossa construção identitária no mundo do funcional, do precisar ser, do precisar fazer.

afinal, penso eu, a pergunta não deveria ser "pra quê serve um quem?", mas, muito mais significativa, "pra quem serve?". a resposta, começo a desconfiar, pode estar muito mais próxima do que a gente imagina.