assombrada

quando a gente mudou pra lá, parecia tudo maravilhoso. era espaçoso, numa rua boa, com uma vista incrível. pena que era assombrada.

assombrada

quando a gente mudou pra lá, parecia tudo maravilhoso. era espaçoso, numa rua boa, com uma vista incrível. tinha até uma "casa dos prazeres" de luxo do outro lado da rua, o que garantia segurança constante.

depois de um tempo, probleminhas surgem aqui e ali: pifou um microondas, o secador de cabelo não funciona, a cafeteira não liga... ah, pera, liga sim, mas se não tiver mais nada na tomada.

ué.

então foi a saga do chuveiro. êta que parou de funcionar bem no inverno. parece que o chuveiro sente, né? deve passar pela cabeça cheia de resistência "quando é que eu posso queimar pra ele ter que tomar banho chamando todos os demos que existem?".

cheguei a acreditar que o prédio tinha sido construído sobre um antigo cemitério indígena e que estávamos sofrendo as consequências de profanar terra antiga. sei lá, vai que né...

falamos de sair mais de mil e quinhentas vezes, mas sempre tinha uma desculpa.

"ah mas é perto do metrô"

"gente, mas a região é maravilhosa"

"tem aquela feira gastronômica aqui per-ti-nho não saio não saioooo"

"O RESTAURANTE DA MOÇA DO MASTERCHEF É DO LADO SOCORRO AMO ESSE LUGAR"

mas o poltergeist não tinha acabado. tava só esperando a gente se distrair, achar que a vida podia ser tranquila, pra então destruir nossos espíritos. e tudo aconteceu em um único ano, o red wedding brasileiro.

olhando pra trás agora, parece bobeira, mas o tanto de coisa que enguiçou, quebrou, queimou, atrapalhou e irritou esse ano, olha, não cabe nem no coração do povo lá da banda mais bonita da cidade.

enfim, resolvemos fazer algo e esse algo resumia-se a não fazer nada sobre os problemas de lá, muitíssimo pelo contrário, seria achar problemas em outro lugar. e assim fizemos.

achamos, enfim, o apartamento ideal. região boa, amenidades que nunca iremos usar, mas que é bom saber que tão por ali, novinho (ou seja: podemos tomar café e passar roupa ao mesmo tempo! prioridades de quando a gente fica velho).

pois é. findou-se a jornada, ainda mais no espírito natalino e de festividades. ano novo, vida nova, apartamento novo, né?

fui lá no antigo ontem, última visita necessária, resolver coisa miúda.

"tchau fulano, obrigado por todos esses anos, viu? tchau beltrana, tchau pra cachorrinha também, né? coisa fofa".

lágrimas nos olhos, obrigado por todos esses anos, apartamento diabólico.

eis que, num último suspiro maligno, tropeço no último degrau da escada (imensa, de 5 degraus), viro o pé e estiro um ligamento no tornozelo.

juro que, depois disso, voei daquele amityville e nunca mais olho pra trás, se não iam achar os relatos e compor um daqueles filmes do tipo "found footage". eu hein.