sobre a vida, educação e ser gente

eu sempre gostei de escrever. desde que eu era pequeno, pegava folhas de caderno e, numa técnica antiga e quase esquecida, rabiscava minhas ideias de mundos fantásticos habitados por gigantes que viviam em florestas; guerras infinitas contra seres malignos feitos de escuridão; viagens dentro de um barco que atravessava universos e mais um infindável repertório regado à filmes, livros e a imaginação de um menino de 10 anos.

quando minha mãe, meu pai ou algum familiar me perguntava "o que você quer ser quando crescer?" eu sempre tinha uma coleção de possíveis trabalhos, indo desde "arqueólogo" (porque queria ser um tipo de indiana jones no parque dos dinossauros) ou "astrólogônomo" (um mix de confusão com as palavras e vontade de ser o luke skywalker da minha geração). eu só não tinha entendido ainda que, no fundo, eu queria era inventar mundos e enchê-los de personagens, tramar seus destinos, seus amores, seus mistérios e, numa profunda reflexão quase kafkiana, virar o ser humano de dentro-para-fora e refletir sobre nossos mais íntimos medos, desejos e virtudes.

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eu queria ser escritor, essa era a verdade. filho de um pai professor e de uma mãe empreendedora que sempre me aproximou de livros e filmes (e ficou do meu lado até eu fazer toda a lição de casa), página a página esse amor cresceu dentro de mim. lembro de andar para a escola, no caminho já conhecido pelos pés, vislumbrando batalhas épicas entre dois exércitos inimigos sobre uma planície que se estendia até o horizonte, já sonhando com a adaptação do meu best-seller para o cinema! meu passeio predileto sempre foi o litoral em dias chuvosos, uma fonte riquíssima de inspiração para os capítulos mais melancólicos porém carregados de esperança. o cheiro do mar sempre me carregou para lugares distantes, onde eu podia sonhar com os mundos de Mark Twain, Rowling, Tolkien, Arthur C. Clark e tantos tantos tantos outros...

confesso que a literatura brasileira demorou a cair no meu gosto, mas, quando descobri as sutilezas de Manuel Bandeira e Cecília Meireles, foi um pulo até estar devorando Jorge Amado e as obras do maravilhoso Aluísio Azevedo. tudo que eu mais queria no mundo era contar histórias como todos os meus ídolos, explorar fatos e fazer críticas por meio de personagens cheios de nuances. o tempo ia passando e a minha pastinha de manuscritos ia engordando, cheia de planos, capítulos e referências, dando corpo ao meu próprio mundo fantástico.

então, duas coisas aconteceram e ambas mudaram minha vida para sempre.

sempre confiei muito nos meus professores, então, depois da insistência de alguns amigos (meus primeiros - e únicos - leitores), levei alguns manuscritos para uma professora, de língua portuguesa e literatura. ela agradeceu a confiança e disse que iria me devolver em breve. uma semana passou e nada. duas, três. quase um mês depois, resolvi perguntar para ela e, pelo olhar, percebi que ela ainda não havia lido. "tudo bem, ela tem muito trabalho!", disse para mim mesmo. afinal, ela estava me fazendo um favor. alguns dias depois, ela me chamou e me entregou as folhas em um envelope. ansioso, puxei e vi que ela havia feito diversos comentários em caneta vermelha, corrigindo errinhos de gramática e com algumas perguntas. fiquei bastante contente! porém, veio a sentença de morte quando, ao responder o meu ansioso "o que achou?", ela me devolveu um morno "está bom. não é nenhum Machado de Assis, mas está bom". não digo que me ofendi, muito menos que me senti mal... eu apenas não sabia o que sentir. minhas tias todas ficaram horrorizadas, é claro.

então, pouco tempo depois, eu fui diagnosticado com a doença de Legg-Calve-Perthes, uma degeneração óssea que acomete adolescentes do sexo masculino e em 8-10% dos casos é bilateral, ou seja, acontece nas duas pernas. eu fui um dos 8%, é claro. o que aconteceu é que a cabeça do fêmur se descolou lentamente da minha bacia, causando dores terríveis e, depois de uma longa tentativa de repouso forçado, me levou a duas intervenções cirúrgicas, nas quais quatro pinos de platina fixaram minha parte de baixo com a minha parte de cima.

por um ano, eu não pude andar, não pude fazer coisas simples como sair da cama, tomar banho, trocar de roupa ou qualquer outra tarefa trivial sem a ajuda de pelo menos duas pessoas. a gente não faz ideia do quanto esse sentimento de incapacidade esmaga nossa alma até estarmos até o pescoço com dor, sem podermos nos mover. é uma tristeza excruciante que faz a gente se sentir um fardo, acaba com a nossa auto-estima, faz a gente querer só ficar deitado, olhando pro teto, tentando acordar daquele pesadelo horrível só pra descobrir que essa via crucis, na verdade, é o mundo real.

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foi nessa época, também, que eu parei de escrever. talvez a combinação da minha primeira crítica ter sido dizer que eu não era "nenhum Machado de Assis" e o fato de eu estar me sentindo miseravelmente só tenham drenado a minha inspiração; aquela cócega no cérebro e aquele zunido no ouvido que nos fazem querer botar tudo pra fora tinham sumido, ido de vez.

durante um ano, eu não pude ir à escola e eu acho que isso foi o que mais mexeu comigo. meu pai, sabendo que eu sempre gostei de ler, me trazia vários livros que eu devorava, na falta de outras coisas pra fazer. era a minha versão do fugere urbem, na qual eu era a cidade quebrada e cinza. foi o ano mais longo da minha vida, com uma noite imensa e fria crescendo dentro de mim a cada comprimido de antibiótico e sessão doída de fisioterapia.

então chegou o grande dia de voltar para a escola. e como eu estava animado! não que eu tenha sido o melhor aluno do mundo desde sempre, mas fazer o que todos os adolescentes da minha idade estavam fazendo me colocava no mesmo grupo, quase como se minha vida fosse normal de novo e eu pudesse esquecer o que tinha acontecido comigo. tudo isso, é claro, se eu não tivesse ainda que usar muletas.

pra não transformar isso aqui no relato da auto-piedade, em resumo, eu sofri bullying tanto de alunos quanto de professores. perdi as contas do número de vezes que minhas muletas foram tiradas e levadas para longe enquanto todo mundo ria ou então de um professor de educação física que me viu atravessando a quadra de muletas (eu tinha que movimentar os músculos, por ordens médicas) e reclamou em alto e bom tom que eu estava de cena para não participar das aulas. bom, isso sem contar, é claro, a professora que jurou que eu tinha morrido, por isso não aparecia mais.

agora imagina o vulcão que é um adolescente debilitado que está um ano atrás nos estudos, sem muitos amigos, com aspirações artísticas inserido nessa selva hostil que em nada favorece seu desenvolvimento enquanto ser humano. eu fiz a coisa mais óbvia: chorei rios até minha mãe me tirar da escola, já que eu precisava terminar o tratamento, a fisioterapia e ainda fazer vários outros exames de acompanhamento.

depois de um tempo, minha vida foi se ajustando. eu voltei aos trilhos, voltei à escola, encontrei novos amigos, passei no vestibular, fiz vários projetos, criei minha primeira empresa, comecei a participar de redes de pessoas incríveis e hoje estou aqui. eu sempre vi muita gente falando que essas coisas mudam nossa vida pra sempre e que passar por uma experiência traumática dessa deixa um rastro que nem cheiro de pólvora depois de uma explosão, mas eu nunca acreditei nisso, até que tudo voltou à tona esses dias.

é claro que a minha história sempre foi meu motivo, minha "linha prateada" e que me conduziu a, hoje, trabalhar com educação. eu acredito com todas as forças que, se eu tivesse sido estimulado ao invés de rechaçado logo cedo, teria investido mais na minha carreira como escritor e, talvez, hoje estaria fazendo outra coisa. também acredito que se a escola fosse diferente, se ela soubesse lidar com a diversidade e soubesse abraçar situações fora do "normal", eu não teria passado por uma noite tão comprida e, talvez, tivesse aproveitado muito mais meu ano de convalescência. mas, um pontapé atrás do outro, sempre fui jogado ladeira abaixo, me fazendo desacreditar em quem eu era e em quem eu poderia ser.

a gente cansa de ver a escola como ela é hoje, com as mesinhas, as crianças, o professor, o quadro, o giz e toda a carga que isso carrega. pra mim, é uma experiência muito poderosa colocar os pés dentro de uma sala de aula, principalmente sem a necessidade das muletas. eu olho pra tudo aquilo e, num vendaval dos ponteiros do relógio, sou de novo aquele menino acuado, triste e debilitado, sem saber quem eu era, o que eu queria ou o que eu estava fazendo ali. penso, também, em quantas dessas crianças se sentem assim, fora de lugar, num mundo dominado pelos smartphones, tablets e pela troca instantânea de mensagens sendo substituído pela mesma sala de aula em que eu vivi um dos períodos mais complicados da minha vida até hoje - pelo menos por 5 horas de cada dia.

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tenho visitado muitas escolas aqui nos estados unidos e pretendo falar disso mais para a frente, mas precisava antes compartilhar isso com o mundo, porque creio que essa experiência dialogue muito com a minha visão sobre o que é educação, o que é inovação e, principalmente, o que é o meu sonho pra isso tudo. esse um ano definiu o rumo de todo o resto da minha vida e, apesar de toda a dor, eu sou muito grato pois, hoje, eu luto para que nenhuma criança precise se sentir daquele jeito de novo.

eu luto por uma educação diferente. eu luto pela escola do futuro, hoje.