tecnomachismo

preciso desabafar: hoje foi um dia muito triste. não, não há piadinha escondida por trás disso, muito menos irei reclamar de alguma amenidade. foi mesmo um dia triste, que me deixou angustiado. explico.

hoje aconteceu o InterConPHP, um evento organizado pelo iMasters, que é uma organização super bacana que reúne algumas empresas de tecnologia e desenvolve alguns projetos nessa área. um dos mais legais, em minha opinião, são esses eventos que eles organizam, cada um com um foco distinto. o de hoje era focado na linguagem de programação mais utilizada para desenvolvimento de aplicações web, o PHP. o apresentador era o Ariel Alexandre, fundador do Videolog e atual co-fundador da Amomuito, um cara com pose de comediante, super ligado nas tendências, de fala boa e tal. o evento, majoritariamente composto por homens, tinha toda a pinta de evento tradicional da TI: piadinhas nerds e geeks, referências à semi-vida que levam os programadores hoje em dia e todo aquele papo de "somos bons, vamos mudar o mundo com nosso poder mas temos que fazer o que o chefe manda". até aí, ruim, porém o cenário típico.

o problema todo começou após uma bela apresentação do José Papo, um developer relations da Google que falou bastante sobre o impacto que a tecnologia tem hoje em áreas que nem imaginamos (como um scanner, o Scanadu que te auxilia a ter pré-diagnósticos em casa). o apresentador do evento, Ariel, sem tato ou meio-termo, retomou a fala exclamando que "poxa um dispositivo desse é legal para avaliar mulheres depois que você transa". epa, epa, epa, cartão vermelho na parada. cara, você ainda tá nessa? ficou até meio evidente o riso nervoso do José Papo, que ficou sem graça após a piada. gente, desde quando mulher é objeto pra ser avaliado? ou livro? aliás, desde quando homem também é? desde quando alguém deve ser publicamente avaliado pelo "teor da transa"?

"ai Marcos que crica você foi só uma piada bla bla bla".

não se antecipem, ladies and changemen, o show de horrores estava só começando. daí em diante, as piadinhas sexistas tomaram conta do ambiente e, daí, foi um passo para tornarem-se homofóbicas também. sabe aquela velha piadinha do "fulana vem cá... ué fulano, você é fulana então? kkkkkk" então, daí para baixo. o fundo do poço enfim chegou e abateu-me quando, numa dita "guerra dos frameworks" foram chamadas algumas moças da organização para segurar o microfone para o palestrante enquanto ele digitava comandos no computador. até aí, nada demais, não fosse o tom extremamente sexual que se empregou à essa ação. a moça era, sim, muito bonita, porém isso foi transformado no evento do dia, com diversas piadas envolvendo a namorada do palestrante, alfinetadas num dos rapazes do evento - "ué, não vai lá segurar o microfone para ele, fulano? não, né? ele prefere a moça, rapaz esperto kkkkkk".

não duvido que, já nesse ponto, muita gente esteja utilizando do artificio da defesa ao comediante para invalidar toda e qualquer crítica ao que presenciei lá: eram piadas, apenas isso. consigo ouvir o eco das vozes que outrora podem ter entoado gritos de gigantes acordando, mas que, hoje, prontamente me acusariam de estar exagerando. afinal, "tudo hoje em dia é machismo, credo, tudo é homofobia também, não pode nem fazer uma piadinha". não, não pode mesmo. e sabe por que? porque elas perpetuam uma cultura violenta contra mulheres, contra minorias, quaisquer que sejam elas (negros, homossexuais, loiras, nordestinos e etc). é fácil fazer um gracejo do alto de sua pirâmide dominante, afinal, você não é a vidraça atingida pela pedrinha. por várias pedrinhas, todo dia, nas ruas, no trabalho, no evento de tecnologia dito contemporâneo.

é fato que as mulheres ainda são minoria na área da tecnologia - na verdade, ainda são minoria no mercado de trabalho, mas vou me ater à minha área. quando cursei a graduação, começando em 2007, a proporção era, grosso modo, 3 ou 4 meninas numa sala de 60 estudantes. ainda hoje, o número é baixo. segundo dados da FUVEST, em 2007, 28,9% dos ingressantes eram do sexo feminino, tendo mantido-se semelhante 7 anos depois, 15,4% em 2014. apesar da discrepância na porcentagem, é preciso considerar que a carreira de Sistemas de Informação foi unida à de Computação em geral. de maneira assombrosa, o número de mulheres ingressantes não aumentou de maneira proporcional.

para somar ao já problemático cenário, olhando agora o panorama mundial, basta dar uma voltinha no colega próximo, o Vale do Silício, para notar que a situação não está amistosa para as pessoas do sexo feminino. apenas esse ano, escândalos em grandes empresas de tecnologia chamaram a atenção da mídia, explicitando situações de opressão, perseguição profissional e misoginia. no GitHub, por exemplo, um dos expoentes na cultura de colaboração e produção de código open-source, temos o caso de Julie Anne Horvath que, após acusações de sexismo e intimidação, desligou-se da equipe. não podemos esquecer do caso de Evan Spiegel, fundador do seu/meu/nosso querido Snapchat, que teve emails da época de faculdade vazados na rede, nos quais descrevia ações e utilizava termos completamente sexistas e racistas para comunicar-se com os membros de sua fraternidade. e o mais recente caso de Whitney Wolfe, ex-co-fundadora do Tinder, que acusou um dos sócios de abusar verbalmente (e sexualmente!) dela, de referir-se à ela de modo a denegrir sua imagem e até mesmo alegar que ter uma mulher como co-fundadora de uma startup poderia enfraquecer a imagem da empresa e deixar subentendido que ela seria uma organização fraca.

a evidência é clara, mas, ainda assim, sou obrigado a ficar no mesmo auditório que um grupo machista e que, de forma sexista, refere-se desde à figura da mulher como um todo até às funcionárias do Hotel no qual o evento ocorreu, constrangendo-as perante uma plateia cheia, diminuindo-as ao papel de objeto que pode ser usado e que serve exclusivamente para o deleite de 250+ programadores babões. depois disso, era quase insuportável estar naquele lugar, ver uma violência medieval ser cometida uma vez após a outra, de forma quase uníssona entre todos os participantes do evento, em especial ao cara que estava com o microfone na mão e o papel de apresentador. poxa, iMasters, custa rodar um background check antes de sair entregando microfone assim?

o que mais me deixa enjoado em toda essa história é o fato de que, ao serem questionados pelo apresentador se pretendiam empreender, muitos ali levantaram a mão. quer dizer que, além de ter que assistir o machismo exalar de cada poro, eu devo esperar que as próximas "ideias revolucionárias que vão salvar o mundo" saiam dali?! podem me chamar de pessimista ou até dizer que fiz uma leitura muito drástica do cenário, mas duvido muito que algum problema real será resolvido por pessoas que não conseguem enxergar além do óbvio: a igualdade entre pessoas independentemente do sexo, cor, orientação sexual e afins. e esse problema tem raízes profundas, começando na universidade. esse problema está enraizado no empreendedorismo, no sistema de startups que surgem e recebem milhões de aporte por mandarem um YO para as pessoas. esse problema grita no Vale do Silício, berço do empreendedorismo e da inovação e grita também no Brasil, mercado emergente, potência comercial, alvo de investidores espalhados pelo mundo.

esse problema é grave, gravíssimo, e precisa ser resolvido imediatamente (juro que estou pensando em como). só sei que um vagão rosa definitivamente não é a solução.

Edit (23/07/2014 - 18:40): atualizei a descrição do Ariel (de fundador para co-fundador, coloquei o Videolog também), a pedido dele mesmo.