o dia em que minha cabeça explodiu

tem dias em que o que a gente mais quer é chegar em casa, sentar na frente da TV, achar um filme legal passando e esvaziar a cabeça, não pensar no mundo nem em tudo o que acontece lá fora. é claro que tem, é nosso direito. a gente vai pro trabalho logo cedo, pega quase 2 horas de trânsito, metrô lotado, trem cheio, gente mal educada pisando no seu pé, te olhando torto quando você tropeça. ou tá calor daqueles de azedar o feijão ou tá chovendo, aquela chuva que faz tudo cheirar a cachorro ensopado. chegamos no trabalho, deixamos esse universo metrô/cptm para trás, colocamos o fone de ouvido, abrimos o álbum mais legal que tivermos no spotify/itunes/youtube/hd e tocamos a vida. digita daqui, preenche documento dali, imprime, pausa pro café, digita mais, programa, manda email, liga, o cliente não gostou disso, o usuário mandou email pro suporte, o computador tá com problema... almoço.

pausa na vida; suspendam o universo.

fila indiana no restaurante, gente se acotovelando, comida quente. a gente ri com os amigos, a gente observa as pessoas ao redor, mas a cabeça ainda está naquele probleminha que ficou lá, escondido pela proteção de tela. caminhadinha de volta, pega o cafezinho (nunca matou, né?), senta de novo. digita daqui, cafezinho dali, reunião acolá, anota, manda aquela gif sensacional no chat da empresa, todo mundo ri. o relógio observa, um ponteiro correndo atrás do outro. o sol, que nasceu de um lado, está indo dormir do outro - e a gente se apropria do recurso poético, mesmo tendo estudado lá atrás que na verdade é a terra que se move, né? mas a escola foi embora. "agora é a vida real", a gente se diz entredentes, quando enxerga que existe um abismo entre terminar a universidade e fazer o que quer que seja. "vamos empreender!", a gente se motiva, remando contra a maré, com o peito inflado de orgulho por ser parte de um movimento super bacana e descolado.

passa um, passam dois, passam três anos. muita coisa aconteceu, muita coisa vai acontecer, mas a gente se pega pensando que talvez esse ritmo frenético, essa pilha de coisas que surgem quase que naturalmente - derivadas da quantidade de trabalho, da complexidade de se gerenciar uma equipe grande e, principalmente, das adversidades que o ambiente nos coloca - acaba nos afastando do real sentido de tudo isso. "e qual o sentido?", perguntei-me, entre um almoço, uma tecla pressionada e um cafezinho meio frio. e foi aí que minha cabeça explodiu.

o primeiro passo foi simples, apesar de sujo: derrubar as paredes do escritório. saí para a rua, peguei o mesmo trem e o mesmo metrô, mas eles pareciam ressignificados. afinal, eram meus olhos que estavam diferentes. ao invés de cair na falácia de que trabalhar é um processo o qual devemos seguir de maneira metódica e organizada, eu me lembrei que trabalhar era, há 3 anos atrás, correr pelo mundo tentando descobrir o que estava errado e, principalmente, o que eu poderia fazer para deixar isso certo. pode parecer comichão de gente irrequieta, que quer sair por aí gritando que sempre tem algo novo ou que sempre está na crista da onda, mas não é, acredite. só posso oferecer minha(s) palavra(s) em relação a isso, mas garanto que quando minha cabeça explodiu, me senti livre. ainda há cacos por todas as partes, mas não faço questão de juntar - muito pelo contrário. faço questão de jogar ao vento, para que eles atinjam os pontos mais distantes do planeta terra.

o que houve? falei com gente, nada mais. ouvi histórias incríveis, dignas de romances que atravessam séculos! contos de pequenos que fazem motim por causa de uma biblioteca; histórias de uma terra longínqua, onde jovens jogadores de um misterioso jogo ensinam os mais novos por dias a fio; fábulas de uma linda donzela que aprendeu a organizar os livros de uma biblioteca com apenas 9 anos de idade! já ouviu falar de um raio que caiu 3 vezes no mesmo lugar e acabou com os meios de comunicação de todo um reino? conversei com senhoras poderosas, que gerenciam organizações inteiras e estavam totalmente dispostas a contar um pouco dos problemas que enfrentam por causa de vilões invisíveis ou até mesmo por causa do próprio governo, veja só!

corram, o rapaz enlouqueceu! chamem a polícia, chamem os bombeiros, chamem o padre!

o mais belo em tudo isso é que não foi inventado, foi apenas coberto de arabescos. paredes são boas para proteger da chuva e do frio. ah! são boas também para pendurar quadros e fazer pinturas, quem sabe até colocar uma lousa bem grande e bonita para que você possa escrever? paredes só não são boas quando servem para definir quem você é e - pior - o que você faz todos os dias. paredes são piores ainda quando impedem você de deixar sua cabeça se abrir ao meio e explodir em milhões de pedacinhos, porque você está ocupado demais configurando o roteador, passando cabos de rede, resolvendo os problemas com a energia elétrica ou então cumprindo a árdua e terrível tarefa de fingir que o mundo limita-se ao que está na sua escrivaninha, bem a sua frente.