repito: eu não sou o menino da informática.

nem sou também o menino que entende "dessas coisas aí" ou que "fala essa língua de alien" ou que "entende da TI" como se tecnologia da informação fosse uma seita mística na qual, pra entrar, você precisa beber café de um crânio com o logo do space invaders. sou, muitíssimo menos, o "menino que pode fazer um sisteminha rapidão só pra eu poder fazer o controle do meu caixa", porque esse rapidão é relativo pacas e a gente não faz estimativa de tempo com base na direção do vento.

a tecnologia sempre foi uma parte muito importante da minha vida, a real e a imaginária também. dá até aquela sensação agridoce de memória quando lembro de ver star wars com os meus pais e passar os próximos meses brincando de luke skywalker contra darth vader, naquela luta dentro da nave, bem contra o mal, pai contra filho, a costura de toda a trama. a diferença é que meu sabre de luz era um cabo de vassoura e meu darth vader era minha irmã mais nova, enrolada em uma toalha de banho.

nascido no fim dos anos 80, peguei o quebrar da onda da grande era da nostalgia, com a calça jeans na cintura, os ícones do rock, os brinquedos hipercoloridos e o fim da era dos fliperamas e videogames atari. nasci num tempo meio transitório, que foi do lançamento do telescópio hubble ao bug do milênio.

eu nasci no ano em que a internet nasceu.

o boom da web, começando com o discador da américa online e com os preços abusivos sendo rapidamente devorados pela internet “a cabo”, causou alvoroço da minha não tão distante juventude regada a acne e sensação de não-pertencimento. os trabalhos da escola iam e vinham por e-mail, o MSN era uma janela pra nossa alma adolescente (e pro nosso gosto musical duvidoso) e o orkut fornecia indicadores bastante objetivos sobre se uma pessoa era suficientemente legal, confiável e, claro, sexy.

essa era a nossa turma, meio esquisita, mas super descolada. que se sentia sozinha, mas, ao mesmo tempo, entrava em salas de bate papo com gente do mundo todo. eu cresci numa época em que eu tinha certeza de quem eu deveria ser, mas, ao mesmo tempo, não tinha a menor ideia de quem eu queria ser. as possibilidades que a tecnologia e a web proporcionaram eram muito parecidas com o que eu via nos filmes e nos livros, então como é que eu ia ficar de fora?

lembro de pensar, enquanto soprava o cartucho do nintendo pra fazer o super mario voltar a funcionar, que devia ser muito legal criar aqueles jogos, sentar na frente de um computador e digitar mil comandos até fazer um encanador italiano correr pela tela pegando moedas de dentro de tijolinhos. ou então, enquanto eu assistia arquivo x na record, que devia ser demais pertencer ao grupo dos "pistoleiros solitários" e usar todo tipo de tecnologia ultra avançada para redirecionar satélites do governo e mandar um "só add com scrap" pro universo lá fora.

então foi, de certa forma, natural que eu desbravasse as terras da computação, frente a um mercado aquecido e com infinitas matérias ditando “o fim dos empregos tradicionais” e o quanto “os programadores vão dominar o mundo”. vi meus amigos buscarem cursos profissionalizantes para aprender a programar, a fazer automação industrial, robótica, eletrônica e mais uma infinidade de áreas com nomes super cheios de hype.

tinha, porém, um acorde desconexo nessa história, que eu fui ouvir só anos mais tarde.

meu coração.

agora imagina pegar uma massa desforme e irritada que é um adolescente de 17 anos e estressá-la até o ponto de ruptura, fazendo prestar vestibular e decidir o que ela vai fazer pro resto da vida! essa massa vai ficar ainda mais maluca, possessa, possuída e, então, quando ela descobrir que passou e entrou num curso de computação, essa massa vai dissolver e sumir.

eu só não imaginei que, a partir desse dia, eu me tornaria, para sempre, o menino da informática.

antes de mais nada, apesar de ter aprendido muita coisa importantíssima, feito grandes amigos, ter estudado em uma das melhores universidades da américa latina, ter entrado em contato com professores que amam a ciência, a pesquisa e tudo mais, ainda assim, eu detestei ter feito computação. a experiência da universidade já é bastante traumática, fazendo a gente passar noite em claro, estudar coisas que são genéricas pra caramba, ter que aturar briga de egos e ser direcionado para aquilo que seu departamento acha importante. mas, para mim, ter escolhido um curso de uma área técnica, cheio de matemática, foi um pesadelo.

eu quase desisti várias vezes, não só pela minha dificuldade com a área, mas, especialmente, porque eu entrei sendo considerado o melhor aluno da escola e, lá dentro, constantemente me sentia o pior aluno da universidade. sofri, comi o pão que o mefistófoles amassou, mas, no fim, me graduei, com sangue, suor e lágrimas sufocadas nas poucas festas da faculdade das quais participei (sorry mamãe).

o que aconteceu nos anos finais, e especialmente nos seguintes à minha graduação, é que eu finalmente conheci o mundo real, com gente real e com problemas reais. não, não foi um momento de iluminação mística, por mais que seja tentador contar a história dessa forma. o campus da minha universidade ficava do lado de uma comunidade na zona leste de são paulo - a mais pobre da cidade, mas, também, a mais populosa. no dia-a-dia de entrar lá, participar da dinâmica social, econômica e até política do bairro, você acaba percebendo que existe uma bolha ao redor de algumas pessoas, mas de outras não.

eu morava na minha bolha cor de rosa e nunca havia percebido que só o fato de estar ali naquela universidade, que era pública e mantida com dinheiro das pessoas ali do lado, enquanto elas mesmas não usufruiam deste mesmo direito, já era suficiente para me tornar um privilegiado na sociedade brasileira. confesso que minha primeira reação foi a pior possível: a síndrome do super-herói. eu achei que com os magníficos conhecimentos que a universidade havia me dado, eu poderia contribuir e salvar a vida das pessoas, acabar com a pobreza e com a desigualdade e fazer do mundo um lugar mais justo. ia ganhar um nobel ou dois no processo.

meu primeiro chute no pâncreas foi quando inventamos de dar oficinas gratuitas para estudantes de escolas públicas, ensinando a fazer sites, usar ferramentas de software livre e mais uma cacetada de coisas "extremamente úteis" e, um belo dia, um dos alunos me disse que não poderia mais ir porque o pai tinha sido preso e a mãe não queria ficar com ele.

ouch.

fui caminhando, fui aprendendo, fui tomando na cara. era bem constante estar cercado de pessoas amantes da tecnologia, que adoravam discutir as novas ferramentas, os novos lançamentos da samsung, as melhores formas de se realizar uma operação altamente abstrata com um algoritmo altamente abstrato enquanto, dentro de mim, tinha um redemoinho de angustias e vontades e medos e duvidas e raiva. sim, raiva. eu fiquei com raiva do meu mundo, porque achava que eu tinha desenvolvido competências inúteis para um mundo que precisava de outro conjunto de habilidades.

com toda essa piração, o que eu menos queria era girar a roda do capitalismo da maneira tradicional, então eu fui me enfiando em tudo quanto era possibilidade de trabalho que minimamente envolvesse as coisas que realmente importavam para mim. dei aula, abri empresa, criei plataforma, desenvolvi site e por aí vai. em alguns momentos, engoli o orgulho e virei programadorzão padrão. em outros, saí completamente da casinha e trabalhei com processos, projetos, pessoas, arte, teatro, música... e cheguei nas escolas.

quando eu comecei a trabalhar com educação, há uns 6 ou 7 anos, ficou muito claro para mim que tem muita possibilidade bacana por aí, mas também tem muita iogurteira top therm. acontece que tem um monte de doido gritando aos sete ventos que "tem que escalar", "tem que ser plataforma" ou ainda que "tem que coletar dados e gerar relatórios". uma energia insana em fazer o treco funcionar no iOS 144 e no internet explorer 2 enquanto a escola de xiririca da serra não tem nem eletricidade. foi aí que o tico e o teco apaixonaram, casaram e tiveram 3 neuroniozinhos filhotes: eu achei a área certa pra mim, com necessidades e pessoas diversas

foi uma longa jornada até eu finalmente entender que aquilo que eu tinha, aquele conjunto de habilidades, servia sim a um propósito. a tecnologia não era, afinal, toda essa mágica que eu via na televisão. ela era, na verdade, um conjunto de competências técnicas e ferramentas para resolver problemas complexos do mundo real. ela era o meio, não o fim. ela era o processo de solução, não a solução em si.

a tecnologia, afinal, era a ferramenta para a transformação.

neste sentido, eu me achei. eu entendi - depois de montar startup, depois de ir pro terceiro setor, depois de ir pro governo, depois de ir pra fora do país, depois de ir pra dentro do país - que esse conjunto de habilidades que eu tenho, na verdade, é extremamente importante e poderoso. ele serve pra me ajudar a enxergar os problemas e propor soluções que conversem com nosso mundo atual, que sejam perenes, que reduzam a complexidade das coisas e que, de modo geral, possibilitem que o impacto seja ampliado em muitas vezes.

a caminhada foi longa demais pra eu ser reduzido a um estereótipo por causa da minha área de formação. não tenho vergonha de conhecer tecnologia, de gostar de videogames, de ler notícias da área e de entender quando alguém usa termos técnicos. no entanto, fico bastante frustrado quando todo esse microcosmo construído a duras penas passa despercebido, ou, ainda pior, é roubado de mim. eu consigo pensar estrategicamente, eu posso contribuir na solução de probleams complexos, eu entendo de educação, eu entendo de políticas públicas, eu sei usar ferramentas para identificar necessidades de pessoas e delinear potenciais soluções. eu sei tudo isso, eu aprendi. então, por favor, não diminua minhas contribuições ou meu potencial para "o sisteminha" que precisará ser desenvolvido ao final do processo.

afinal, eu não sei bem o que sou, mas sei que não sou o menino da informática.