crise de meia e tênis

olha, quem dera eu pudesse ter o juízo perfeito para entender tudo o que se passa, mas sei que, ao menos, posso olhar para as coisas e discuti-las. cabe ao receptor, no caso, você, todo o enfadonho e complexo trabalho de decodificar as almôndegas de pensamento cozidas e servidas pelo emissor, no caso, este que vos fala. o fenômeno internético nos permitiu ir muito mais além, criando uma rede invisível de idas e vindas, na qual podemos, juntos, construir um diálogo muito mais rico e (é claro) dando a vossas senhorias a possibilidade de enfiar-me um tapa cibernético no meio disso que chamo de cara, provavelmente enquanto lêem sentados na privada. dito isto, tomo por dimensionado o impacto que a interlocução pode gerar em espaços significativamente babacóides - os quais chamarei apenas de mundo das startups - que por hoje pode encontrar-se nos arredores.

mas ora, o que significa esse emaranhado de nada com muito menos? simples: vou chamar de "síndrome dos salvadores do mundo". pode-se notar um curioso fenômeno, de alguns anos para cá, quando jovens das mais variadas classes e origens sociais colocam-se a perseguir e, potencialmente, concretizar sonhos de meninos eurocêntricos, caucasianos, heterossexuais, católicos e bem providos financeiramente, sonhos estes que cultuam o salvamento de pátrias, nações e até mesmo da comunidade-ali-do-cantinho. os discursos são infinitos, as peças publicitárias são caríssimas e a trilha sonora quase sempre utiliza um violão de fundo, bem afinado e exacerbando aquilo que a felicidade tem de melhor.

"salvemos o mundo!", bradam eles, enquanto viram a terceira garrafa de stellinha gelada e pesquisam freneticamente o ciclo de build-measure-learn, a volta mais rápida de feedbacks, o círculo de contatos, a rodada de investimentos, o ciclo sem fim. que nos guiará. "mas para onde?", pergunta-se o engenheiro. "para o alto e avante!", responde o CEO (ou será CTO? ou CMO? ou CBO? HBO? MMO?). lá se vão, em conjunto, para eventos regados à muito coffe-break e contatos, onde todos soam tão gentis quanto a moça do call center, ávidos por serem notados, ansiosos para provar que eles são os próximos a mudarem o mundo.

então, chegou seu momento. o discurso foi preparado com esmero, baseado em todas as melhores técnicas de empatia, marketing e publicidade. os slides, no bom e velho powerpoint, foram polidos até brilhar. todos observam, como um aquário. "queremos revolucionar o mundo". pronto, isso já é mais que o suficiente. se um grupo de garotos brancos quer mudar o mundo, quem somos nós para impedir? "ninguém nunca mais vai perder suas fotos da disneylândia, porque nosso app revolucionário...". um milhãozinho tá bom para você? ah, leve logo 14, afinal, não é todo mundo que tem culhões para mudar o mundo.

na parede do quarto, os pôsteres do zuckerberg e os cartazes vorazes de frases de impacto tomaram o lugar das fotos de bandas ou até das de mulheres nuas. afinal, mulheres servem para isso: ficarem na parede e estarem nuas. salvar o mundo? nah, deixa isso com esses meninos. e essa síndrome pega, se alastra, mais rápida e pegajosa que a nova música da copa (ou então que as GIFs que vira-e-mexe estão por aí, para distrair a gente no intervalo de estar salvando o mundo). hoje em dia, você só precisa ter 16 anos e saber javascript - afinal, javascript é mais poderoso que relações diplomáticas. se você souber html5 então, mas poxa vida! quer passaporte diplomático?

e o frenesi continua, numa relação febril e desembestada que é baseada na relação entre usuários e apps; entre smartphones e funcionalidades; entre quanto tempo você pode despender escolhendo qual o melhor aplicativo para compartilhar suas fotos ou então qual o melhor serviço online para trocar seu já gasto smartphone recém-comprado por um ainda mais novo. ah, mas não esqueça que, no meio desse movimento todo, o mundo está sendo salvo. afinal, esses são os heróis de hoje em dia, esses meninos tão espertos, tão capacitados, tão cheios de energia e doidinhos para soltar o elevator pitch a qualquer momento, como um robozinho programado para vender uma ideia.

saudades dos tempos em que "salvar o mundo" significava mesmo alguma coisa, além de tração e venture capital.